Tuesday, 7 November 2017

M.


A aguardente escorre e coalha,
a água aglutina sua última gota,

e a diferença entre água e o sangue
está na hemoglobina, pode até ser,

porque entre nós e o outro, está o corpo,
disforme força, confusa fome abrupta?

mas agora é distante a cor da blusa rubra da
moça moscovita que se era judia ou cigana,

(está aí uma lembrança impossível)

se Sônia ou Karenina alguma, de algum
Raskólnikov, faz anos vezes rios...

O outro, o moço tinha trinta anos e usava
próteses no lugar dos dentes (ou aparelhos,

também não lembro, ao certo) mas seu sorriso

era um triste sinal de desespero. O moscovita
traga o chineps enquanto sangra pelas gengivas

goela abaixo. A essa altura não há mais luzes em
Stalingrado ou Atibaia, para lermos com os mortos

Boris Pasternak ou outro russo qualquer.

A esta hora uma ilha está quase a desaparecer
no Pacífico Sul, ou até mesmo no sul da América
do Norte algumas cidades podem desaparecer,
(quanto mais um partido) basta “alguém” apertar um botão.

Adolescentes usam botons, quando eu era adolescente
Gostava de jogar futebol de botão com meu primo que

Hoje em dia gostava de beber em Forlan, que foi assassinado.

Eu me lembro da última água-de-coco
que tomei em seu quiosque, da sua barca
branca rebaixada e da sua companheira
médium do Caboclo Boiadeiro.

(Forlan é também o nome de um futebolista uruguaio)

Hoje eu escutei o Exu de Oxalá, cavalo de deus no mar
e caminhei pelo silêncio de semblantes sisudos como
se todos estivesses mortos em Moscou, na Coréia do
Norte ou no Japão.

Mas no final de tudo ainda temos café com canela
para socorrer o cinema.br de cair no abismo do abuso

e desuso, longamente enternecido, de ternura entretecido.

Sunday, 5 November 2017

RANCA-TOCO

no teu colo
eu sou

a cria, a ceia,

uma sereia
eu seria

no teu colo

a cura da criatura
– eu colho –

no teu olho,

o globo
grava a gaivota

voo raso
no lago

ao lado
da canoa

que range
às ondas

e carrega
as cordas

e coroas
do reinado.

ainda no poti
pôs as cores

e fez cócegas
no nariz,

e eu ri, aqui,
sozinho mesmo,

porque
entraste
no ninho,

e fizeste
morada

em meu
caminho,

e naquela
mirada

deixei de
ver-me

e passei
a ver-te

(verde
pasmo)

e ouvir-te
em vez

de ser-me,
e tu e teu


tato, língua
no palato, eu


colho às folhas

a voz que vulcaniza
as horas

que ao peito
arrebato, e

simplesmente,
de ofá e laço,

muiraquitã
e com vestes
de calhamaço,

no auge da aurora,
só agora, rompe-mato.

Monday, 23 October 2017

CONVERSA SOBRE UM CONTO DE JOÃO ANTÔNIO.

De volta pra dentro do barracão,
erguido nos anos 30,

recupero-me aos poucos,

reduzo-me ao silêncio
da escuta e da escrita,

e aos minutos que restam
na bateria que sustenta

tenazmente a tecnologia
de nossa comunicação.

Sabemos, como desde
sempre e então: somos-um

Oráculo invertido em cores
: este Ying-Yang perpétuo.

Queimamos juntos
do papel ao fumo,

e acendemos internamente 
luzes extraordinariamente noturnas.

Insisto dizer, ainda que isto,
e já que tudo seja, por si só,
um absurdo absoluto.

(Cessaram as palavras,
e quaisquer linguagens,
cessaram)

Em mim – paisagens

são frequências
de além mar

e oriundas da terra
mais que profunda

– meu-eu-caboclo,
este índio terreno

alcalino terráqueo,
reivindica-se.

Ouço os ecos destas
narrativas, e creio

vibrando em riste, sobre mim,
a magia de BABAEGUN.

(Que de onde vem a morte
a vida retorna mais forte.)

Porque a fonte aonde se
ligam as tomadas da vida, 
a força é infinita, inescrutável,
embora às vezes, percebida.

(deste autor o pai nasceu no nordeste      
de portugal, e veio ser proletário em osasco,
se casou com uma mulher, irene, filha de escravos

no rio de janeiro – quatrocentos anos – e o toque  
do atabaque, nunca cessou, é a frequência
desta potência ligada à tomada da vida)

Amálgama das épocas, nosso tempo.
Esse encontro expande os intervalos
entre as vidas e suas trajetórias.

Vive-se-morre, morre-se se vive.
Som, silencio. Som, silêncio e som.

A verve que nos move é una, seu   
marritmo alimenta a rebentação.

Quando desembarcaram os ancestrais                                                                                   encontraram meus queridos canibais.

Conexão indeterminada, duração

: ininterrupta


Friday, 7 July 2017

Nada mais

sem saudosismos. ou
algumas coisas assim:
uma transa,1 trampo, 1 treco.
uma harmonia d 1 violão baiano.
gnomos de cabelos e cachos cor
de cerveja passeiam livres na praça.
so just a one moment, baby...
or...i really don't know...
depois d tanto tempo,
tudo mais parece saudosismo.
toda tentativa leva à exaustão,
toda noite a lua teima.
essa noite Gustavin
fez som em ssa. essa noite.
e eu aqui contando as hrs
p/ lua-cheia de amanhã.
tudo (g) e eu aqui, aí, ali
onde a dança d tuas pernas
leva o pensamento p/ passear
carregado em teu colo y tua coleção
d carícias impronunciáveis. não há amor.
há alguém q trepa no muro. sem saudosismos.
1, 2 sexos místicos. eu acredito qndo seu espírito
dança sobre dobra do tempo, cobra se arrastando
no vão do mar. acredito q não duvido. acredito, não
acredito. acredito nas águas, escuto seu marulho q
sussurra uma serpente num voo líquido. desfeita a
cachoeira de caos, sobra o lago repleto de êxtase
que é teu espelho onde as nuvens fazem uma
sombra passar devagar pela face d'água,
q alivia a dura frieza das pontas das pedras
q rasgam/brotam terras desconhecidas
no meio do coração da mata.
uma nascente despenca
e vai ter nos teus pés,
morada. mordido. tem hrs
q vc pode morar numa foda.
y ficar lá, como num ninho.
sem-sair, nem se-mexer,
nem doer, nem gemer. só-lá:
submerso submarino-atômico,
sequestrado por terroristas
ou ancestrais alienígenas.
tudo p q era vc.
tudo por isso, e
nada + ...

Friday, 30 June 2017

Sem título nº 1



Kipupa
             em Olinda,
               ou quase,
                 um domingo
                          na mata,
            depois da Noite
            do Dendê.
Os pés
            dançam aos
                          seus no
                  coração
           da Bahia.
Eu no
                mar
                      bebendo
              a lua.
Mas havia
                   roteiro
                 pro destino?
Os alemães
               na minha sala
          não entendem.
Avisem que
   estou subindo
     a Amazônia,
        entre cabos
          de fibra-óptica
e florestas de cipós
          de folhas verdes,
                  à Terra
        onde os mortos
guardam o Sol.

Tuesday, 14 February 2017

Caboclo Taperoa

Caboclo Taperoa: 
"Que a paz de Oxalá renove tuas esperanças de que, depois de erros e acertos; tristezas e alegrias; derrotas e vitórias; chegará ao teu objetivo mais nobre; aos pés de Zambi maior!"
MUCUIÚ N'ZAMBI!


Eu tenho Zumbi dos Palmares, 
tenho Besouro, 
o Chefe dos Tupis. Sou tupinambá. 
Tenho os Erês, Caboclo-Boiadeiro, 
Mãos-de-cura, Morubixabas, Cocares, 
Arco-íris, Zarabatanas, Curare, Flechas & Altares. 
Tenho a velocidade da luz, o escuro da mata escura,...
Eu tenho Zumbi dos Palmares, tenho Besouro, 
o Chefe dos Tupis. Sou tupinambá. 
Tenho os Erês, Caboclo-Boiadeiro, 
Mãos-de-cura, Morubixabas, Cocares, 
Arco-íris, Zarabatanas, Curare, Flechas & Altares. 

Tenho a velocidade da luz, o escuro da mata escura, 
o breu, o silêncio, a espera. O tempo sempre a meu favor.
Todos os pajés em minha companhia. O menino Deus brinca 
& dorme nos meus sonhos, o Poeta me contou… Não misturo,
não me dobro. A Rainha do Mar anda de mãos dadas comigo. 
Me ensina o baile das ondas & canta, canta, canta para mim. 
E é do Ouro de Oxum que é feita a armadura que guarda o meu corpo, 
garante meu sangue, minha garganta. O veneno do mal não acha passagem. 
Me sumo no vento. Cavalgo no Raio de Iansã, giro o mundo, viro, reviro. 
Vôo entre as estrelas, vou além. Me recolho no esplendor das nebulosas, 
descanso nos vales, montanhas, durmo na forja de Ogum Guerreiro. 
Rezo com as três Marias no céu. Mergulho no calor da larva dos vulcões:
corpo vivo de Xangô. Não ando no breu nem ando na treva. 
Medo não me alcança. No deserto, me acho. Faço cobra morder o rabo, 
faço escorpião virar pirilampo. Fulminar aquele que é injusto, aquele que maltrata,
aquele que transforma a vida nas mazelas a que assistimos no dia-a-dia: 
Tu, pessoa nefasta! - Eu não provo do seu fel, eu não piso o seu chão, 
e para onde você for, pessoa nefasta, não leva meu nome, não. 
Não mexe comigo, que eu não ando só…
Saravá.

ASA

per
ti tu
de
de
ar
ar
mado
no gra
mado
a
nado
des
calço,
dis
farço,
o
passo
em
falso,
a
falsa
alça
da
asa
do br
aço.