Num mar imóvel
movimentos momentâneos;
Num labirinto espelho marulho e maresia.
Uma sinuosa sinfonia
sinestésica
anestesia a máquina azeitada dos dias.
Moer as pedras nos moinhos da maré
não mais confusos os movimentos de teus pés.
Marcas na areia
são trilhas de alforria
que a branca espuma vem tentando desfazer;
E às ondas, passos vêm reescrever,
caminhos de memórias que percorrem
Percursos,
povoados, rituais contra-artimanhas
rezas, mitos, mortes e montanhas.
Nessa aventura de ancestrais por entre as eras
que em mistérios a Sol e Lua reverbera
Todo um tempo de
quimeras e quereres
afiados em relâmpagos, lâminas de luz,
que laceram a escuridão e seu capuz
como quem corta a cabeça do inimigo
Difícil é
quando você tá vivendo o melhor momento da sua vida pessoal, profissional,
espiritual aí você se vê no meio de uma grande injustiça.(Que Xangô se faça
presente! Kawo Kabiesilê). Só que teu Orí não te abandona, nem se esquece, tua
memória ancestral funfun te ensina que a mentira é tão poderosa que a sua única
verdade é ser desvelada, aí a primeira coisa que vem a sua cabeça é frase: "A
felicidade do negro é uma felicidade guerreira". Os irmãos e seres de luz,
em vigília, de dia e enquanto durmo, me fortalecem e me dão sustento. É mais
que testemunho, é missão mesmo. A vida é missão de aprender a viver e saber
doer e passar, saber resistir e estar, o resto pouco importa, o que importa é
saber passar e deixar que os ventos levem e tragam, o faço e o que me fazem. Aí
Exu te responde (Laroyê Bará, Exu Odara), aí Yemanjá (Odoyá!), que é Mãe,
enquanto dormes te responde, te amostra, te escreve a carta da cura contra o
engano, para que se corrija o erro, a injustiça. Aí você acorda, pensando em
algo que leu ontem, que “Orí é o primeiro a nascer e o último a morrer”, então
Ogun te diz: "Minha espada espalha o sol da guerra /Rompe mato, varre céus
e terra/A felicidade do negro é uma felicidade guerreira/ Do maracatu, do
maculelê e do moleque bamba", ah...e como se eu não fosse negro, como se
não fosse um moleque bamba, como se eu não estivesse na terra do maracatu,
terra de calungas e eguneguns, soltos pelas ruas e ladeiras sangradas por
nossos mais próximos ancestrais. Nós, filhos e filhas de Dandara e "Zumbi,
comandante guerreiro/Ogunhê, ferreiro-mor capitão/Da capitania da minha
cabeça/Mandai a alforria pro meu coração". A essa altura Gilberto Gil,
mais uma vez me diz que não preciso dizer, nem pensar mais nada, só sentir:
gratidão, amor e paz. Meus guias seguem por mim aqui no Ayê, no Orun ou em
Aruanda (Xetruá Caboclo Boiadeiro, meu pai, a benção,Tupinambá e Sultão das
Matas firmes combatentes e caçadores) guerreando e assim "Minha espada
espalha o sol da guerra/Meu quilombo incandescendo a serra/Tal e qual o leque,
o sapateado do mestre-escola de samba/Tombo-de-ladeira, rabo-de-arraia,
fogo-de-liamba". E por isso tudo e por que sou poeta, irmão fantasma da
palavra, gêmeo do absurdo, semelhante ao átimo genético da criação do ar, do
fôlego, do sopro que corre em ritmo de floresta silvando a noite porque respira
pelo ventre da mãe terra através das raízes das gameleiras, sumaúmas e
outrantas esferas sanguíneas da criação de que somos todos partes infímas e
iguais, formas genéricas da perfeição aparente diluídas em linguagem pura e
tantas vezes vã, é por isso tudo e porque sou poeta que "Em cada estalo,
em todo estopim, no pó do motim/Em cada intervalo da guerra sem fim/Eu canto,
eu canto, eu canto, eu canto, eu canto, eu canto assim:" em refrão, coro,
arranhando a garganta:
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
Por que se não for assim, não vai, se não for cantando e
sangrando a alma em palavras a vida não vinga, nem há vitória que valha, não há
prazer que se goze calado, só a dor e a humilhação é que se come calado, mas o
amor a vida vivida em sua intensidade é a única música possível, som deslizante
dos dias, trilha sonora dos anos passados e futuros, sangue, sangue, sangue
negro não é a água da banheira não, muito menos aqui no "Brasil, meu
Brasil brasileiro/ Meu grande terreiro, meu berço e nação/Zumbi protetor,
guardião padroeiro/Mandai a alforria pro meu coração".
Pode parecer irônico, cínico ou até mesmo engraçado se não
fossem ambas, a farsa e a tragédia, numa dança em círculos e elipses
concêntricas que apagam as oscilações e só se voltam para si, ou seja, para a
centralidade do poder, para a agência da dominação. Vis-a-vis o modo operante
de um Estado fascista. Pode parecer crítico, ilustrado ou até mesmo digno, mas
produzir a crise para ter direito a ser injusto é o pior dos crimes. Lesar a
harmonia em relações sociais e contratos intra e inter-étnicos pelo prazer do
desvio ao justificar o excesso e a opressão via hegemonia econômica, política e
ideológica é caso comum. Vis-a-vis o modelo de contrato de um Estado facista.
Fragmentação, contradições, desequilíbrios viram a norma quando se usa um totem
ou uma bandeira diante da qual muitos se curvam, para ter um exército em
exercício nas ruas a fim garantir seja lá o que for que se chame autonomia ou
governabilidade é sem dúvidas um ato arbitrário de (des)controle da hierarquia
social. Vis-a-vis a maneira de atuar de um Estado fascista. Ao se erguer o
cenho, franzir a testa, esbravejar em gestos, altear a voz nas rádios,
televisão, nas redes e mídias sócias e sociais são sentidos sintomas dos sinais
dos tempos em que a crise dos sistemas não significa a crise dos paradigmas ou
dos códigos de programação que organizam os sistemas, seja o de informação ou
da supremacia branca capitaista. Vis-a-vis o jeito dos regimes de um Estado
fascista. A necessidade da fuga, da fusão, do auto-engano, do engodo, da pura e
simples mentira ou a nobre arte da omissão e do não sei ou do me esqueci é ao
que parece e tudo indica o caminho que se percorre ao voltar para a casa de sua
gente ou mesmo entre os entes queridos quando se trata com amigos ou inimigos
neste terreno minado das relações em épocas tão instáveis como esta. Esta na
qual basta-se ter um ponto de vista minimamente oblíquo ao do mais próximo que
já se tem o bastante para olharmos com desconfiança e insegurança que generalizadas
por nossas feridas históricas nos remetem a lugares de memórias inscritos em
nossos corpos negros que consubstanciam o sofrimento total de tudo ao
sentimento que impele a necessidade urgente de emancipação e agência do e sobre
o próprio corpo, casa e coração. A menor brisa que possa correr entre as
arestas de nossos edifícios morais, éticos ou ancestrais como no caso do eco do
grito de liberdade ameaça as estruturas das ordens criadas e impostas como
normas, como verdades que de velhas nos vencem por dentro sem que possamos
querer ao menos acessar ou dar espaço ao novo ou aceitar as condições de
possibilidade de sua emergência. Vis-a-vis a situação vivida pela
"democracia" em dias de totalitarismo arregaçado. A autopromoção, a
necessidade de protagonismo, a inveja, a desconstrução deliberada de grupos e
sujeitos, a desfaçatez da sabotagem, esse clima de hostilidade, a empáfia da
soberba, a arma sempre apontada antes mesmo do ataque, a incomunicabilidade, a
incompreensibilidade do diálogo, a interdição da narrativa, o silenciamento da
narração, a censura contra o narrador(a) marcam a vivaz violência em campo
aberto e a fogo de alta intensidade contra irmãos, irmãs, negros, índios,
mulheres, pobres, trans, queers, velhos, crianças. Vis-a-vis o pagamento recebido
pelas diferenças em regimes de alteridade seletiva, machismo e misoginia
endógenos, preconceitos, discriminações e racismos vários (seja ambiental ou
institucional) quando ainda mais o Estado é mais-que-fascista. A crítica da
crise é começo da superação. A autocrítica é o começo da nossa própria cura.
Vis-a-vis como o Estado fascista combate, condena e extermina o nosso povo,
como quem vê dentro de si (no outro, mais um de nós mesmos) o germe da mudança
e transformação que deve ser destruído por ordem do pensamento conservador que
não pode encontrar lugar para esse outro, em seu arquetípico estilo de vida,
"Estado de Sítio" constante contra si tão bem arquitetado por anos e
anos a fio, elo a elo pelas cadeias dos séculos. Vis-a-vis a fundação
enferrujada e militarizada que mobiliza ranços e rancores, medos e temores em
direção ao horror terrificante, ao terror paralisante. Vis-a-vis a sinfonia
muda da morte, a aguardente em seu último gole, o gol perdido no infinito dos
acréscimos, a última ameaça disfarçada de lei no último discurso do general ou
na canetada canalha deste ou do próximo presidente. Estou cansado, estamos, mas
precisamos continuar a organizar as guerrilhas, os quilombos, as aldeias e
fazer tudo isso sem esquecermos o samba, porque a nossa melhor forma de
protesto é viver nosso amor honesto, sermos pretos e estarmos sempre perto.
Eu que não mato um leão por dia, mas cavalgo dragões dentro de mim, estou sem palavras depois dos últimos dias. Por isso muita demora em estar aqui, mas pela graça da gratidão, lá vão! Algumas palavras sobre a Desvairada (2ª ed.) que me atravessam a garganta até hoje e que vão continuar me atravessando a alma por um bom tempo. Esse momento, uma Feira, um Mercado na sexta-feira, Exu operando em alta em dia de Oxalá, não à toa o macumbe-se não chegou a tempo, mas Benjamin esteve lá comigo e fizemos a maior festa entre velhos amigos e novos conhecidos. No sábado, o Benjamin não foi, mas com a permissão das Yabás e de Exu, eu e a Kza 1, fizemos uma bela participação no rolê.
A nossa editora levou junto com o macumbe-se, o "Postagens e Antipostagens" do Luiz Guilherme, o "se te amarrarem na estrada" do Heyk Pimenta e "o desastre que não nos olha" da Letícia Feres. A saída que elabora o efeito evento, foi realmente a distribuição encontrada por Fabiano Calixto, Natália Agra, Marília Garcia, Leonardo Gandolfi e Tiago Marchesanopara,entre tantos autores e tantas editoras, gerarem um espaço dinâmico e criativo que ao reunir desde a Luna Parque, a Crisálida, a Corsário Satã, OEP, treme ~ terra, Porta Aberta, a Boto-Cor-de-Rosa (com o pré-lançamento do novo livro do Ederval Fernandes), entre tantas outras iniciativas editoriais, conseguirem reaquecer com estilo e personalidade a presença daqueles e aquelas que estão atuando na vida literária brasileira atual. E em meio a tudo uma nova editora carioca, direto de Vila Isabel para o mundo, através do Thadeu C Santxs e Vinícios Melo, sem esquecermos a Nina, sebo e livraria, que vem junto.
O risco que traça o movimento deste ato, a agência das palavras, é a chance de não nos esquecermos de nós ou de algo ou de mais alguém. Além do mais, palavra anotada não se revela à toa, nem conta ou escreve seu mistério, ela enevoa e se dissipa, ela marulha e arrulha, nas asas das ondas e nas espumas do voo. Recuperamos o fôlego do sopro em versos, em cada anúncio e enunciado, em cada criação do verbo vocalizado.
Projeto gráfico do macumbe-se, por Thadeu C Santxs
O improviso deixa o riso nervoso e o desespero drástico, como nas palavras do Reuben (CAVALODADÁ) em DRÁSTICO (Malha Fina Cartoneira, 2018) o poema "Temporada de caça ao índio ka' apor" diz: "sentenças vendidas/ por juízes//fazendas maiores que países/" ou então quando Leo Gonçalves, na segunda edição do seu ótimo "Use o acento para flutuar" (Crisálida, 2018) nos diz que "tem osasco tem cabula/ tem rocinha, eu e você/ não permita ogun que eu bula/ com os guardinhas da upp [...] não permita exu que o morro/ se destrua pro lado de lá/ se bandido vier eu corro/ se a polícia vier ratatatá". Por sua vez, Phillippe Wollney em seu "caosnavial" (porta aberta, 2015) enuncia: "entre o tráfego e o tráfico/ a rotina anuncia: um passa-passa senão te passo".
Foto: Thadeu Santxs. (autografando o macumbe-se p/ o R. Lobo)