Wednesday, 21 December 2016

ANCESTORS



Como que passado 

por grandes sustos,

como se as palavras 

nos fossem dadas 

pelos mortos, 

pelos primeiros espíritos

(ancestrais da Terra)

árvores ou animais, 

ou uma pedra 

no fundo mar 

segurando a 

próxima inundação 

ou, até mesmo,

de vozes oblíquas

que singram os arcos

que formam o círculo 

que é de compassos 

que traçam em 

palavras sagradas, 

vozes que do nada 

surgem, do invisível

aonde o medo

não pode alcançar.

Tuesday, 13 December 2016

BOM DIA, REVOLUÇÃO (GOOD MORNING REVOLUTION – Langston Hughes)

Bom dia Revolução:
........Você é a melhor amiga
........Que sempre tive.
Nós vamos, camarada, por aí juntos de agora em diante.
Ei, ouça, Revolução:
Você sabe, o chefe onde eu costumava trabalhar,
O cara que me deu um ar para reduzir despesas
Ele escreveu uma longa carta para os jornais sobre você:
Disse que você era uma encrenqueira, uma inimiga-estrangeira,
Em outras palavras, um filho-da-puta.
Ele ligou para a polícia
E disse a eles para vigiarem uma camarada
Chamada Revolução.
Você vê,
O chefe sabe que você é minha amiga
Ele nos vê sair juntos
Ele sabe que nós somos famintos e clandestinos,
E que não temos droga nenhuma neste mundo –
E que vamos fazer alguma coisa sobre isto.
O chefe tem tudo o que ele precisa, com certeza,
.....Come até inchar,
.....É dono de muitas casas,
.....Sai de férias,
.....Fura greves
.....Trata de política, suborna a polícia
.....Compra o Congresso,
......E bota banca em todo o mundo –
Mas eu, eu nunca tive o bastante para comer
Eu, eu nunca estive aquecido no inverno.
Eu, eu nunca conheci segurança –
Toda a minha vida, vivi com uma mão na frente
....................E a outra atrás .
Ouça, Revolução,
Somos companheiros, vê –
Juntos
Nós podemos tomar tudo:
Fábricas, arsenais, casas, navios,
Ferrovias, florestas, campos, pomares,
Linhas de ônibus, telégrafos, rádios,
(Meu deus! Levantar o inferno com rádios!)
Siderúrgicas, minas de carvão, poços de petróleo, gás
Todas as ferramentas de produção.
(Grande dia na manhã)
Todas as coisas –
E transformá-las para as pessoas que trabalham,
Tomá-las e fazê-las funcionar para nós, as pessoas que trabalham.
Camarada! Os rádios!
Transmitindo aquela primeira manhã para URSS:
Outro membro da Internacional acabou de chegar
Saudações para as Repúblicas Socialistas Soviéticas
Ei, vocês, trabalhadores levantando-se por toda parte, saudações –
E nós vamos cantar: Maré
Cantar: Cabula
Cantar: Quilombo Rio dos Macacos
Cantar: Demini
Cantar: Oaxaca
Cantar: Amazônia
Assinar com meu nome: Trabalhador.
Neste dia ninguém vai sentir fome, frio, opressão
Em parte alguma do mundo de novo.
Este é nosso trabalho!
Eu estava morrendo de fome há muito tempo,
Você não?
Vamos, Revolução!

Tradução: Camillo César Alvarenga.


GOOD MORNING REVOLUTION – Langston Hughes

Good morning, Revolution
You're the very best friend
I ever had.
We gonna pal around together from now on.
Say, listen, Revolution:
You know, the boss where I used to work,
The guy that gimme the air to cut down expenses,
He wrote a long letter to the papers about you:
Said you was a trouble maker, a alien-enemy,
In other words a son-of-a-bitch.
He called up the police
And told 'em to watch out for a guy
Named Revolution.
You see,
The boss knows you're my friend.
He sees us hangin' out together.
He knows we're hungry, and ragged,
And ain't got a damn thing in this world--
And are gonna do something about it.
The boss's got all he needs, certainly,
Eats swell,
Owns a lotta houses,
Goes vacationin',
Breaks strikes,
Runs politics, bribes police,
Pays off congress,
And struts all over the earth--
But me, I ain't never had enough to eat.
Me, I ain't never been warm in winter.
Me, I ain't never known security--
All my life, been livin' hand to mouth,
Hand to mouth.
Listen, Revolution,
We're buddies, see--
Together,
We can take everything:
Factories, arsenals, houses, ships,
Railroads, forests, fields, orchards,
Bus lines, telegraphs, radios,
(Jesus! Raise hell with radios!)
Steel mills, coal mines, oil wells, gas,
All the tools of production,
(Great day in the morning!)
Everything--
And turn 'em over to the people who work.
Rule and run 'em for us people who work.
Boy! Them radios--
Broadcasting that very first morning to USSR:
Another member the International Soviet's done come
Greetings to the Socialist Soviet Republics
Hey you rising workers everywhere greetings--
And we'll sign it: Germany
Sign it: China
Sign it: Africa
Sign it: Poland
Sign it: Italy
Sign it: America
Sign it with my one name: Worker
On that day when no one will be hungry, cold, oppressed,
Anywhere in the world again.
That's our job!
I been starvin' too long,
Ain't you?
Let's go, Revolution!

"então o nosso povo já andou aqui nessa terra..."

Narrar os últimos dias tem sido extremamente necessário. seja em poesia ou nas circunstâncias que constroem os momentos. de qualquer maneira, os encontros e as trocas tem sido por demais valiosas e raras. portanto, nada melhor que elaborar os acontecimentos e torná-los factíveis dispositivos da memória. são tempos de torpeza e envilecimento. envelhecemos as custas de nossas próprias ruínas. enquanto herdamos passagens secretas por labirintos de horas, templos do acontecido. as presenças com seus vetores de intensidade e desejo mobilizam forças anímicas e ancestrais. o xamã caminha junto a alma dos pássaros e das águas, abre caminho na mata, descalço, vestido de folhas e redemoinhos, passa por dentro das pedras e continua caminhando... o canto ecoa em desertas paragens... tecnologia de acesso do presente. a vida como uma experiência de uma virtualidade potencial considerada pela forma da razão e motivo que direciona e intenciona a escolha implicada na necessidade de enfrentarmos a incerteza. só não deixa dúvida a beleza, essa queda da vaidade, força natural de espontaneidade aparente e ordem oculta. o tempo essa magia obscura de complexidade diferente, se faz de um delírio no dilúvio das sensações e transportes históricos específicos = atualização temporal de uma vontade potencial em fluxo constante de oscilações equipolentes. Ainda mais surreal o real quando absurdos se tornam fatos. Que de tanto pensar a memória se gasta em resgatar o rosto, gravar o contorno dos passos e dos percalços, a língua que fala e gesticula internamente algo que se diz palavra e vem de alhures em nós. Em nós osculam-se o cálice e o pai, o parto e a refazenda, a aldeia que existe no mar e a mata que nos abriga e acolhe da imensidão maior infinita do cosmo. Nos inflamamos pela chama acessa da vida que vem de um lugar mais distante e anterior. Sente-se próximo mais uma vez o despertar, e quando chamar a Serra, não se lamente, saiba encontrar os rastros pros atalhos de si mesmo, siga aquela que chama pelo totem e para distante do tabu. ouçamos Gaia e os encantados enquanto ainda acreditamos que nos ouçam.

Agradeço realmente a todos que fizeram junto os últimos dias, em especial Daniela, uma grata surpresa conhecê-la, Jurema foi muito bom revê-la, D. Maria Tupinambá, uma felicidade extrema poder encontrá-la no Recôncavo, a Suzana pela lucidez, a Paulo Pataxó HãHãHãi pela comunicação estabelecida com os encantados, a Uila pela poesia "que de tão boa, voa", a Elódia pela presença de espírito... deixo aqui uma memória sonora e plástica que possa se dilatar no tempo aberto por/em/entre nós.

Ouça: https://soundcloud.com/camilloc-saralvarenga/canto-xamanico-pataxo-hahahai

OS INVOLUNTÁRIOS DA PÁTRIA, Eduardo Viveiros De Castro

Aula pública durante o ato Abril Indígena, Cinelândia, Rio de Janeiro 20/04/2016

Hoje os que se acham donos do Brasil — e que o são, em ultimíssima análise, porque os deixamos se acharem, e daí a o serem foi um pulo (uma carta régia, um tiro, um libambo, uma PEC) — preparam sua ofensiva final contra os índios. Há uma guerra em curso contra os povos índios do Brasil, apoiada abertamente por um Estado que teria (que tem) por obrigação constitucional proteger os índios e outras populações tradicionais, e que seria (que é) sua garantia jurídica última contra a ofensiva movida pelos tais donos do Brasil, a saber, os “produtores rurais” (eufemismo para “ruralistas”, eufemismo por sua vez para “burguesia do agronegócio”), o grande capital internacional, sem esquecermos a congenitamente otária fração fascista das classes médias urbanas. Estado que, como vamos vendo vendo, é o aliado principal dessas forças malignas, com seu triplo braço “legítimamente constituído”, a saber, o executivo, o legislativo e o judiciário.

Mas a ofensiva não é só contra os índios, e sim contra muito outros povos indígenas. Devemos começar então por distinguir as palavras “índio” e “indígena”, que muitos talvez pensem ser sinônimos, ou que “índio” seja só uma forma abreviada de “indígena”. Mas não é. Todos os índios no Brasil são indígenas, mas nem todos os indígenas que vivem no Brasil são índios. Indios são os membros de povos e comunidades que têm consciência — seja porque nunca a perderam, seja porque a recobraram — de sua relação histórica com os indígenas que viviam nesta terra antes da chegada dos europeus. Foram chamados de “índios” por conta do famoso equívoco dos invasores que, ao aportarem na América, pensavam ter chegado na Índia. “Indígena”, por outro lado, é uma palavra muito antiga, sem nada de “indiana” nela; significa “gerado dentro da terra que lhe é própria, originário da terra em que vive”.1 Há povos indígenas no Brasil, na África, na Ásia, na Oceania, e até mesmo na Europa. O antônimo de “indígena” é “alienígena”, ao passo que o antônimo de índio, no Brasil, é “branco”, ou melhor, as muitas palavras das mais de 250 línguas índias faladas dentro do território brasileiro que se costumam traduzir em português por “branco”, mas que se refere a todas aquelas pessoas e instituições que não são índias. Essas palavras indígenas têm vários significados descritivos, mas um dos mais comuns é “inimigo”, como no caso do yanomami 'napë', do kayapó 'kuben' ou do araweté 'awin'. Ainda que os conceitos índios sobre a inimizade, ou condição de inimigo, sejam bastante diferentes dos nossos, não custa registrar que a palavra mais próxima que temos para traduzir diretamente essas palavras indígenas seja “inimigo”. Durmamos com essa. Mas isso quer dizer então que todos as pessoas nascidas aqui nesta terra são indígenas do Brasil? Sim e não. Sim no sentido etimológico informal abonado pelos dicionários: “originário do país etc. em que se encontra, nativo” (ver nota 1, supra). Um colono de 'origem' (e língua) alemã de Pomerode é “indígena” do Brasil porque nasceu em uma região do território político epônimo, assim como são indígenas um sertanejo dos semi-árido nordestino, um agroboy de Barretos ou um corretor da Bolsa de São Paulo. Mas não, nem o colono, nem o agroboy nem o corretor de valores são indígenas — perguntem a eles...

Eles são “brasileiros”, algo muito diferente de ser “indígena”. Ser brasileiro é pensar e agir e se considerar (e talvez ser considerado) como “cidadão”, isto é, como uma pessoa definida, registrada, vigiada, controlada, assistida — em suma, pesada, contada e medida por um Estado-nação territorial, o “Brasil”. Ser brasileiro é ser (ou dever-ser) cidadão, em outras palavras, 'súdito' de um Estado 'soberano', isto é, transcendente. Essa condição de súdito (um dos eufemismos de súdito é “sujeito [de direitos]“) não tem absolutamente nada a ver com a relação indígena vital, originária, com a terra, com o lugar em que se vive e de onde se tira seu sustento, onde se 'faz a vida' junto com seus parentes e amigos. Ser indígena é ter como referência primordial a relação com a terra em que nasceu ou onde se estabeleceu para fazer sua vida, seja ela uma aldeia na floresta, um vilarejo no sertão, uma comunidade de beira-rio ou uma favela nas periferias metropolitanas. É ser parte de uma comunidade ligada a um lugar específico, ou seja, é integrar um 'povo'. Ser cidadão, ao contrário, é ser parte de uma 'população' controlada (ao mesmo tempo “defendida” e atacada) por um Estado. O indígena olha para baixo, para a Terra a que é imanente; ele tira sua força do chão. O cidadão olha para cima, para o Espírito encarnado sob a forma de um Estado transcendente; ele recebe seus direitos do alto.

“Povo” só '(r)existe' no plural — povoS. Um povo é uma multiplicidade singular, que supõe outros povos, que habita uma terra pluralmente povoada de povos. Quanto perguntaram ao escritor Daniel Munduruku se ele “enquanto índio etc.”, ele cortou no ato: “não sou índio; sou Munduruku”. Mas ser Munduruku significa saber que existem Kayabi, Kayapó, Matis, Guarani, Tupinambá, e que esses não são Munduruku, mas tampouco são Brancos. Quem inventou os “índios” como categoria genérica foram os grandes especialistas na generalidade, os Brancos, ou por outra, o Estado branco, colonial, imperial, republicano. O Estado, ao contrário dos povos, só consiste no singular da própria universalidade. O Estado é sempre único, total, um universo em si mesmo. Ainda que existam muitos Estados-nação, cada um é uma encarnação do Estado Universal, é uma hipóstase do Um. O povo tem a forma do Múltiplo. Forçados a se descobrirem “índios”, os índios brasileiros descobriram que haviam sido 'unificados' na generalidade por um poder transcendente, unificados para melhor serem des-multiplicados, homogeneizados, abrasileirados. O pobre é antes de mais nada alguém de quem se tirou alguma coisa. Para transformar o índio em pobre, o primeiro passo é transformar o Munduruku em índio, depois em índio administrado, depois em índio assistido, depois em índio sem terra.
E não obstante, os povos indígenas originários, em sua multiplicidade irredutível, que foram indianizados pela generalidade do conceito para serem melhor desindianizados pelas armas do poder, sabem-se hoje alvo geral dessas armas, e se unem contra o Um, revidam dialeticamente contra o Estado aceitando essa generalidade e cobrando deste os direitos que tal generalidade lhes confere, pela letra e o espírito da Constituição Federal de 1988. E invadem o Congresso. Nada mais justo que os invadidos invadam o quartel-general dos invasores. Operação de guerrilha simbólica, sem dúvida, incomensurável à guerra massiva real (mas também simbólica) que lhes movem os invasores. Mas os donos do poder vêm acusando o golpe, e correm para viabilizar seu contragolpe. Para usarmos a palavra do dia, golpe é o que se prepara nos corredores atapetados de Brasília contra os índios, sob a forma, entre outras, da PEC 215.

Os índios são os primeiros indígenas do Brasil. As terras que ocupam não são sua propriedade — não só porque os territórios indígenas são “terras da União”, mas porque são eles que pertencem à terra e não o contrário. Pertencer à terra, em lugar de ser proprietário dela, é o que define o indígena. E nesse sentido, muitos povos e comunidades no Brasil, além dos índios, podem se dizer, porque se sentem, indígenas muito mais que cidadãos. Não se reconhecem no Estado, não se sentem representados por um Estado dominado por uma casta de poderosos e de seus mamulengos e jagunços aboletados no Congresso Nacional demais instâncias dos Três Poderes. Os índios são os primeiros indígenas a não se reconhecerem no Estado brasileiro, por quem foram perseguidos durante cinco séculos: seja diretamente, pelas “guerras justas” do tempo da colônia, pelas leis do Império, pelas administrações indigenistas republicanas que os exploraram, maltrataram, e, muito timidamente, às vezes os defenderam (quando iam longe demais, o Estado lhes cortava as asinhas); seja indiretamente, pelo apoio solícito que o Estado sempre deu a todas as tentativas de desindianizar o Brasil, varrer a terra de seus ocupantes originários para implantar um modelo de civilização que nunca serviu a ninguém senão aos poderosos. Um modelo que continua 'essencialmente' o mesmo há quinhentos anos.
O Estado brasileiro e seus ideólogos sempre apostaram que os índios iriam desaparecer, e quanto mais rapidamente melhor; fizeram o possível e o impossível, o inominável e o abominável para tanto. Não que fosse preciso sempre exterminá-los fisicamente para isso — como sabemos, porém, o recurso ao genocídio continua amplamente em vigor no Brasil —, mas era sim preciso de qualquer jeito desindianizá-los, transformá-los em “trabalhadores nacionais”.2 Cristianizá-los, “vesti-los” (como se alguém jamais tenha visto índios 'nus', esses mestres do adorno, da plumária, da pintura corporal), proibir-lhes as línguas que falam ou falavam, os costumes que os definiam para si mesmos, submetê-los a um regime de trabalho, polícia e administração. Mas, acima de tudo, cortar a relação deles com a terra. Separar os índios (e todos os demais indígenas) de sua relação orgânica, política, social, vital com a terra e com suas comunidades que vivem da terra — essa separação sempre foi vista como 'condição necessária' para transformar o índio em cidadão. Em cidadão pobre, naturalmente. Porque sem pobres não há capitalismo, o capitalismo precisa de pobres, como precisou (e ainda precisa) de escravos. Transformar o índio em pobre. Para isso, foi e é preciso antes de mais nada separá-lo de sua terra, da terra que o 'constitui' como indígena.

Nós, os brancos que aqui estamos sentados na escadaria da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, em 20 de abril de 2016, nós nos sentimos indígenas. Não nos sentimos cidadãos, não nos vemos como parte de uma população súdita de um Estado que nunca nos representou, e que sempre tirou com uma mão o que fingia dar com a outra. Nós os “brancos” que aqui estamos, bem como diversos outros povos indígenas que vivem no Brasil: camponeses, ribeirinhos, pescadores, caiçaras, quilombolas, sertanejos, caboclos, curibocas, negros e “pardos” moradores das favelas que cobrem este país. Todos esses são 'indígenas', porque se sentem ligados a um lugar, a um pedaço de terra — por menor ou pior que seja essa terra, do tamanho do chão de um barraco ou de uma horta de fundo de quintal — e a uma comunidade, muito mais que cidadãos de um Brasil Grande que só engrandece o tamanho das contas bancárias dos donos do poder.
A terra é o corpo dos índios, os índios são parte do corpo da Terra. A relação entre terra e corpo é crucial. A separação entre a comunidade e a terra tem como sua face paralela, sua sombra, a separação entre as pessoas e seus corpos, outra operação indispensável executada pelo Estado para criar populações administradas. Pense-se nos LGBT, separados de sua sexualidade; nos negros, separados da cor de sua pele e de seu passado de escravidão, isto é, de despossessão corporal radical; pense-se nas mulheres, separadas de sua autonomia reprodutiva. Pense-se, por fim mas não por menos abominável, no sinistro elogio público da tortura feito pelo canalha Jair Bolsonaro — a tortura, modo último e mais absoluto de separar uma pessoa de seu corpo. Tortura que continua — que sempre foi — o método favorito de separação dos pobres de seus corpos, nas delegacias e presídios deste pais tão “cordial”.

Por isso tudo a luta dos índios é também a nossa luta, a luta indígena. Os índios são nosso exemplo. Um exemplo de 'rexistência' secular a uma guerra feroz contra eles para desexistí-los, fazê-los desaparecer, seja matando-os pura e simplesmente, seja desindianizando-os e tornando-os “cidadãos civilizados”, isto é, brasileiros pobres, sem terra, sem meios de subsistência próprios, forçados a vender seus braços — seus corpos — para enriquecer os pretensos novos donos da terra.
Os índios precisam da ajuda dos brancos que se solidarizam com sua luta e que reconhecem neles o 'exemplo' maior da luta perpétua entre os povos indígenas (todos os 'povos' indígenas a que me referi mais acima: o povo LGBT, o povo negro, o povo das mulheres) e o Estado nacional. Mas nós, os “outros índios”, aqueles que não são índios mas se sentem muito mais 'representados' pelos povos índios que pelos políticos que nos governam e pelo aparelho policial que nos persegue de perto, pelas políticas de destruição da natureza levadas a ferro e a fogo por todos os governos que se sucedem neste país desde sempre — nós outros também precisamos da ajuda, e do exemplo, dos índios, de suas táticas de guerrilha simbólica, jurídica, mediática, contra o Aparelho de Captura do Estado-nação. Um Estado que vai levando até às últimas consequências seu projeto de destruição do território que reivindica como seu. Mas a terra é dos povos.

Concluo com uma alusão ao nome de uma rua nn muito distante desta Cinelândia onde estamos agora. Em Botafogo existe, como vocês todos sabem, a Rua Voluntários da Pátria. Seu nome provém de uma iniciativa empreendida pelo Império em sua guerra genocida (e etnocida) contra o Paraguai — o Brasil sempre foi bom nisso de matar índios, do lado de cá ou de lá de suas fronteiras. Carente de tropas para enfrentar o exército guarani, o Governo imperial criou corpos militares de voluntários, “apelando para os sentimentos do povo brasileiro”, como escreve o verbete da Wikipedia sobre a iniciativa. Pedro II apresentou-se em Uruguaiana como o “primeiro voluntário da pátria”. Não demorou muito e o patriotismo dos voluntários da pátria arrefeceu; logo o Governo central passou a exigir dos presidentes das províncias que recrutasse cotas de “voluntários”. A solução para esta lamentável “falta de patriotismo” dos brancos brasileiros foi, como se sabe, mandar milhares de escravos negros como voluntários. Foram eles que mataram e morreram na Guerra do Paraguai.

Obrigados, escusado dizer. Voluntários involuntários. Pois bem. Os índios foram e são os primeiros Involuntários da Pátria. Os povos indígenas originários viram cair-lhes sobre a cabeça uma “Pátria” que não pediram, e que só lhes trouxe morte, doença, humilhação, escravidão e despossessão. Nós aqui nos sentimos como os índios, como todos os indígenas do Brasil: como formando o enorme contingente de Involuntários da Pátria. Os involuntários de uma pátria que não queremos, de um governo (ou desgoverno) que não nos representa e nunca nos representou. Nunca ninguém os representou, àqueles que se sentem indígenas. Só nós mesmos podemos nos representar, ou talvez, só nós podemos dizer que representamos a terra — esta terra. Não a “nossa terra”, mas a terra de onde somos, de quem somos. Somos os Involuntários da Pátria. Porque 'outra' é a nossa vontade.

* * *

Notas:

1 “A palavra 'indígena' vem do «lat[im] indigĕna,ae “natural do lugar em que vive, gerado dentro da terra que lhe é própria”, derivação do latim indu arcaico (como endo) > latim] clássico in- "movimento para dentro, de dentro" + -gena derivação do rad[ical do verbo latino gigno, is, genŭi, genĭtum, gignĕre "gerar"; Significa “relativo a ou população autóctone de um país ou que neste se estabeleceu anteriormente a um processo colonizador” ...; por extensão de sentido (uso informal), [significa] “que ou o que é originário do país, região ou localidade em que se encontra; nativo”. (Dicionário Eletrônico Houaiss)

2 O primeiro nome do SPI republicano (Serviço de Proteção aos Índios) era SPILTN: Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais. Foi SPITLN de 1910 a 1918, depois só SPI, até virar FUNAI em 1967, ao cabo de uma CPI que revelou uma infinidade de abusos, desmandos, violências variadas, explorações e outras benesses protetoras conferidas pelo Estado.

Fernando Pessoa


"Introdução ao estudo do problema nacional (ou império português)"

---> o imperialismo de expansão tem um sentido normal.

Imperialismo ----> expansão ----> civilização ----> territórios ---> (desertos povoados)

Ocupação ---> "necessidade natural de o povo expandir" sobre "territórios ou desertos, ou povoados por populações primitivas ou selvagens"

"O caso do Brasil é típico"

[...]

A NARRATIVA ENTRE O DADO E O FATO

Entre tantos sofrimentos humanos, como por exemplo tanto a escravidão via Atlântico Negro quanto à 2ª Guerra Mundial, constata-se a perda da capacidade de intercambiar experiências como se refere W. Benjamin, no célebre texto “O Narrador”. A dificuldade em comunicar a experiência através de narrativas, ou seja, perspectivas, está diretamente ligada a perda da memória e com os hiatos, como o racismo ou o antissemitismo, no contexto das formas de sociabilidade moderna e contemporânea.
Esta “nova barbárie” condiz ao “esvaziamento da experiência” como no sentido posto por Agambem, que indica a noção de “potência do pensamento” como recurso à recuperação reflexiva do vivido. Baudrillard, um dos teóricos do pós-modernismo, diz que a relação de influência entre consumo e a solidariedade social conduz a adesão de simulacros de códigos de conduta e modelos de comportamento, como o “estilo de vida” construído pela mídia e pela reprodução. Já o linguista, N. Chomsky, ao relacionar o mass media com a manipulação e consentimento da opinião pública e do público, questiona o lugar dos intelectuais, com uma indagação: classe que compreende e interpreta o real?

A narrativa literária consubstancia as obras do imaginário com uma experiência temporal de redefinição do cotidiano. A arte conserva a negação. Contra a colonização do imaginário, a arte interfere na realidade através da transcendência e imanência, contidas na ambiguidade da narrativa da obra de arte. A narratividade permite a mediação das narrativas ao elaborar uma experiência e sua constituição de sentido. Obras como O Homem do Chapéu Vermelho, de Hervé Guibert ou Rum – Diário de um Jornalista Bêbado, de Hunter S. Thompson são formas de recompor os sentidos dos sujeitos ancorados na linguagem, para alcançar uma reconstrução de si e do mundo. Estas obras do pensamento refletem também a capacidade de projetar novos sentidos possíveis na realidade.
Enquanto essas manifestações literárias são experiências narrativas elaboradas pelo romance, a filosofia, com a fenomenologia, mais especificamente, Sartre e Ricouer desdobram a modernidade da linguagem filosófica contida em Husserl e Heidegger, considerando a configuração de sujeitos atrelados a sociedade. A ética no cotidiano das relações sociais orienta a conduta dos sujeitos históricos.

O pensamento fenomenológico incide uma crítica na epistemologia moderna ao questionar a clássica separação entre sujeito e objeto. O que leva a conclusão de uma crise dos sentidos da modernidade e um divórcio anunciado entre a ciência e os sofrimentos humanos.
O que nos permite também questionar, não será também aqui o “intelectual”, posto num amplo sentido – pajés, griôs, yalorixás, etc... – os sujeitos postos entre o dado e fato, responsáveis por narrar a experiência de existência dos povos?

ACUSMÁTICA


dedos
desbaratinam
cordas qual
infinita escada,
esta escala (im)
possível
enfim,
reencontrada.
e como
soam pestanas,
ouço-lhes
em práticas
simples, límpidas
imagens sonoras,
acusmática, voltas.
e logo arranjo
rápidos instantes
líricos.
como se
improvisa
o som, tão
casualmente
dinâmico, tão
necessariamente
rítmico.
canções que
rebentam alta
madrugada e,
de repente,
alíneas com-
postas
do absurdo, a-
cordes
da cor
do abismo-rio
em fluxo
a corrente